6. MEDICINA E BEM-ESTAR

1. A NOVA GUERRA DOS REMDIOS
2. DENTES HIGH TECH

1. A NOVA GUERRA DOS REMDIOS
Indstria brasileira se prepara para lanar no mercado cpias de drogas de ltima gerao usadas para doenas como cncer e artrite reumatoide. Mas a polmica  se elas sero to eficazes quanto as originais
Fabola Perez, Laura Daudn e Monique Oliveira

 ACORDOS - Odnir, da Bionovis, busca ajuda internacional para fabricar os biossimilares
 
Est dada a largada para a nova era da produo de cpias de remdios no Pas. Expiram, agora em 2012, as patentes de remdios biolgicos ? feitos a partir de organismos vivos, como bactrias. Eles so usados para prolongar e melhorar a qualidade de vida de portadores de doenas graves, como o cncer. At 2020, outras dezenas de patentes cairo. Entre elas esto a da Herceptina, usada contra tumor de mama, do Mabthera, para linfoma no Hodgkin, do Remicade, para artrite reumatoide, do Xolair, para asma, e do Lucentis, para degenerao macular relacionada  idade.
 
So medicaes caras ? h doses que podem chegar a at R$ 50 mil ? e que, por isso mesmo, tm um impacto de R$ 6 bilhes anuais no oramento pblico. Espera-se, portanto, que a queda das patentes abale favoravelmente as contas de planos de sade e do SUS e torne esses remdios, em geral mais eficazes, acessveis a uma parcela maior da populao.
 
Porm, o quadro estabelecido denuncia que a questo  mais complexa do que parece. O grande desafio est em saber se as cpias tero a mesma eficcia e segurana que as drogas de referncia. Isso porque, neste caso, o processo de produo dos remdios de marca  muito diferente do aplicado para fabricar as drogas convencionais, das quais hoje  possvel encontrar seus genricos nas farmcias.

Os biolgicos so feitos a partir de anticorpos produzidos por seres vivos modificados geneticamente para gerar mecanismos de defesa equivalentes aos humanos. Diferente, portanto, de molculas sintticas, criadas em laboratrio, como as que originam os remdios comuns. At lotes de biolgicos de uma mesma empresa no so totalmente iguais entre si. ? impossvel produzir duas molculas idnticas?, diz Valdair Pinto, consultor da indstria farmacutica. Por essa razo, uma cpia de um biolgico nunca ser igual ao seu correspondente original.  por esse motivo que elas so chamadas de biossimilares e no de genricos ? esses sim cpias idnticas das drogas de referncia.
 
Como comprovar, ento, a eficcia das cpias? Com testes ? incluindo os clnicos ? semelhantes aos feitos para aprovao da droga original, alm de um exame de comparabilidade para determinar se sua eficcia  igual ou superior ao de referncia. ?Mas a legislao no esclarece se a estrutura molecular do biossimilar deve ser igual  do seu biolgico de referncia?, diz Denizar Vianna, presidente do Centro Latino-Americano de Pesquisa em Biolgicos.
 
Um dos problemas que podem ocorrer com o uso dos biolgicos ? originais ou no ?  a reao descontrolada do sistema imunolgico, que pode reconhec-los como substncias estranhas. O resultado  a intolerncia ao tratamento. Isso  particularmente importante para as doenas que acometem o sistema de defesa, como o linfoma e a leucemia. ?Estamos atentos a tudo o que envolve essas drogas?, diz Merula Steagall, presidente da Associao Brasileira de Linfoma e Leucemia.

Na indstria brasileira, h intensa movimentao para que se consiga produzir remdios de tamanha sofisticao. ?A ao de drogas como essas depende de uma fabricao rigorosa, de alto controle?, diz o reumatologista Valderlio Feij Azevedo, coordenador do Frum Latino-Americano de Biossimilares. Mas aqui, novamente, apresenta-se outro desafio: a capacitao da mo de obra. Estima-se que nos EUA existam 800 mil cientistas envolvidos com biotecnologia ? rea na qual so feitas as medicaes ? , enquanto no Brasil esse nmero no ultrapassa os dez mil. Diante desse cenrio, as empresas se viram impelidas a unir foras para bancar o incio da produo dos biossimilares. Foi criada a Bionovis, formada pela ESM, Ach, Hypermarcas e Unio Qumica, e a Orygen Biotecnologia, formada pela Eurofarma, Cristlia, Biolab e Libbs.
 
A Orygen no anunciou seu investimento e produo. A Bionovis divulgou o investimento de R$ 500 milhes, destinados  produo de cpias do etanercepte, utilizado na artrite reumatoide, e do rituximabe, para o linfoma no Hodgkin. Outras sete drogas esto na lista da companhia. ?Estamos firmando acordos com empresas internacionais que detm o know-how necessrio  produo?, diz Odnir Sinotti, presidente do laboratrio. Na opinio de Sarah Rickwood, consultora da IMS, empresa especializada na anlise de mercados de sade, o incio da produo no Brasil pode representar um avano na gerao de conhecimento. ?Diferentemente da fabricao dos genricos, a pesquisa necessria para a fabricao de biossimilares pode ser uma oportunidade para o Brasil produzir, inclusive, drogas melhores do que as originais?, diz.
 
Algumas iniciativas nesse sentido esto em curso. A Confederao Nacional da Indstria e o Senai fecharam duas parcerias de peso para a formao de profissionais: com o americano Massachusetts Institute of Technology e a alem Fundao Fraunhofer, instituio de apoio  indstria. No ano que vem, as instituies devero criar por aqui 23 institutos de inovao em reas como a biotecnologia. Na mesma linha, o Brasil est firmando convnios com outros pases para a transferncia de tecnologia, como  o caso dos contratos firmados entre a Fundao Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e o governo cubano para a produo nacional do interferon-alfa, j usado para o tratamento de hepatites virais e alguns tipos de cncer.
 
Apesar do alto investimento das empresas brasileiras, eles sero menores do que os despendidos pelos laboratrios que inicialmente criaram essa tecnologia. A Roche, um dos fabricantes que sentiro o abalo com a quebra das patentes, por exemplo, investiu R$ 900 milhes no Avastin, contra o cncer de mama e de colo do tero e cuja patente cai em 2018. Isso  quase o dobro de todo o capital da Bionovis, que produzir nove biossimilares. A empresa teve 20 anos para explorar o mercado. Agora, acompanha o surgimento dos biossimilares com cautela. ? preciso ficar atento em relao  segurana desses remdios. No se pode pular etapas na sua produo?, disse  ISTO Thomas Schreitmueller, gerente de pesquisa e controle de qualidade de produtos biotecnolgicos do laboratrio.
 
Feitas as contas, estima-se que o impacto na reduo final nos preos dos biolgicos ser de 25%, margem bem menor que os quase 80% de diminuio a que chegaram os preos dos genricos. De toda forma, trata-se de uma reduo que, espera-se, beneficiar pacientes como Tatiana Margarida dos Santos, 33 anos, de Curitiba ? desde que as cpias apresentem igual eficcia dos de referncia,  claro. Ela tem psorase (doena crnica inflamatria da pele) e usa o etanercepte. Conseguiu acesso a droga aps enfrentar muita burocracia. ?Tinha usado porque fiz parte de um estudo clnico. Porm a pesquisa acabou e havia ficado sem o remdio?, lembra.


2. DENTES HIGH TECH
Aparelhos sofisticados permitem deteco precisa e solues mais rpidas de problemas dentrios
Monique Oliveira

VISO - O dentista Milton Raposo utiliza aparelho que amplia imagem de dente 
 
A auxiliar de enfermagem mineira Elizete Rodrigues de Souza, 27 anos, foi ao dentista para fazer apenas mais uma limpeza anual nos dentes, seguindo a recomendao ideal desses profissionais para aqueles que querem manter a sade dos dentes e no ter surpresas de tratamentos onerosos no futuro. Mas dessa vez fiquei horrorizada, conta. Apesar dos meus cuidados, vi meu dente cheio de trtaro e infiltraes. A diferena para essa ltima visita em relao s anteriores  que, agora, Elizete viu sua arcada dentria por meio de um monitor dotado de uma cmera que amplia o tamanho das imperfeies em at 60 vezes. Sa com um canal a ser feito e mais conscincia da escovao, afirma.
 
A tecnologia que beneficiou Elizete comea a se difundir no Pas, junto com outras, capazes, por exemplo, de agilizar tratamentos antes finalizados em semanas. A cmera nos ajuda a enxergar o que nem sempre era possvel ver apenas com o espelho de aumento, explica o dentista Milton Raposo, de So Paulo, que utiliza o mtodo. Mas o principal ganho  a maior adeso dos pacientes ao tratamento, diz. 
Tecnologia semelhante est sendo usada para facilitar a confeco de prteses mais personalizadas. Uma delas  o scanner intraoral, que faz uma fotografia completa do dente em trs dimenses. O mtodo dispensa o tradicional molde feito em massa. O paciente no sente nuseas e o resultado final  mais duradouro, explica Tadeu Olinto Andretta, especialista em implantes e professor da Faculdade de Tecnologia de Sete Lagoas, em Minas Gerais. A qualidade final da prtese tambm  superior.

Tambm h ganho de tempo em prteses que anteriormente demandavam vrias visitas a laboratrios e provas para adaptao aos dentes. O processo era manual e rudimentar, diz o dentista Christian Coachman, de So Paulo. Ele usa um mtodo que utiliza fotos, vdeos e entrevistas com pacientes. Os dados so processados em computador e enviados ao prottico. O resultado  uma prtese mais harmnica e adaptada ao sorriso. Outra tcnica, chamada de CAD/CAM, conta com um computador, um scanner e uma mquina que constri, em duas horas, a coroa de cermica, estrutura antigamente feita em metal para corrigir irregularidades no dente. Antes, o procedimento poderia levar semanas para ser finalizado.

